Transexual betinense ganha o mundo

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Criado em 16 de Dezembro de 2015 Gente

Fotos: Acervo Pessoal

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Exemplo de vida e de beleza, Valesca Dominik vence o preconceito e se destaca no principal concurso de beleza transgênero, o Miss Internacional Queen, no qual foi considerada a segunda mais bela do planeta
 
Julia Ruiz
 
HÁ QUEM RELUTE EM ACREDITAR, mas participar de concursos de beleza ainda é o sonho de muitas mulheres. No mundo das celebridades, é comum ver famosas revelando o antigo desejo de serem misses. Para quem acha que isso é coisa do passado, vale
saber que a indústria movimenta bilhões. Para se ter uma ideia, só em 2008, quando informações sobre concursos vazaram pelo
mundo, esse setor movimentou mais de 5 bilhões de dólares, o equivalente, naquele período, ao Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 50 países. O fato é que não só o universo feminino se apropria do “grand slam”. Além do masculino, notoriamente mais morto, quem tem dado um show à parte, nos últimos anos, são as produções LGBT. E, se no Miss Universo é difícil ver o Brasil chegar lá, no Miss International Queen, principal concurso de beleza do mundo para mulheres transgênero, o país pode se orgulhar. E Betim também. Isso porque a betinense Valesca Domink Ferraz, 23 anos, em novembro, deixou mais de 20 participantes para trás e conquistou a faixa de segunda mais bela do planeta. O evento foi realizado em Pattaya, na Tailândia, no dia 6. Direto do país asiático, onde permaneceu por semanas para compromissos inerentes ao concurso, Valesca driblou o fuso-horário para bater um papo com a Mais e falar sobre a conquista e sobre sua história vencedora.
 
Apesar de todo o prestígio e da alegria que ser a segunda colocada numa competição internacional de beleza proporciona, o reinado de Valesca Dominik exige da miss mais do que classe – requer muita paciência, serenidade e, também, bastante coragem. Explica-se: além de beleza e simpatia, algo que nunca faltou à vida de Valesca Dominik foi desafio. Da infância e da adolescência humildes e sem figura paterna, na região do Citrolândia, onde ainda vive, até o preconceito sofrido por ser a primeira transexual negra a vencer concursos de destaque no Brasil e fora daqui, sua vida sempre foi sinônimo de superação. Mais velha de quatro filhos do sexo masculino, ela percebeu, na adolescência, que não se identificava com o gênero. “Nunca tive um padrão masculino para me espelhar. Fui crescendo, descobrindo meus gostos, minhas paixões, e o que realmente me encantava era o universo feminino. A coisa começou a ficar difícil aos 16 anos, quando passei a travar uma luta comigo mesma porque não aceitava mais a aparência masculina diante de uma alma que é feminina. Foi quando descobri minha transexualidade”, relata.
 
PRIMEIROS DESAFIOS
Mesmo com o apoio dos irmãos, que logo perceberam que Valesca era uma pessoa diferente do que aparentava ser, assumir a alma feminina e se transformar foram outro desafio para ela. “Tinha muito medo de magoar minha mãe e esperei um pouco. Só que as pessoas do bairro foram percebendo que havia algo diferente em mim, e, com isso, sofri muito preconceito, ao ponto de andar na rua e me jogarem pedra. Todos os amigos homens heterossexuais também se afastaram, mas nunca desisti de ter uma vida melhor, de andar na rua em paz. Por isso, nunca retruquei nenhuma agressão. Quando completei 17 anos, resolvi contar para minha mãe sobre minha orientação sexual. Naquele primeiro momento, ela sofreu muito e não quis aceitar. Mas o amor de uma mãe e sua vontade de ver um filho feliz são capazes de transformar qualquer coisa. Ela entendeu que eu era diferente”, recorda-se a modelo.
 
Juntamente com o alívio de poder mostrar à mãe quem realmente era, Valesca foi contemplada com a primeira oportunidade profissional, em um salão de beleza no Citrolândia, onde permaneceu até completar 20 anos. “Lá, vi que eu poderia continuar sonhando com um futuro melhor, que iria valer a pena e que ainda poderia dar orgulho para minha mãe. Nesse período, assumi minha alma feminina e mudei a aparência. Em 2013, soube do concurso Miss Pantera Trans, em Belo Horizonte, e, meio que por brincadeira, resolvi participar, terminando em segundo lugar. Aquilo me encantou, me cativou. As pessoas chegavam e falavam que eu levava jeito para modelo, para fotografar e que eu deveria ir em frente nesse ramo. Só que, ao mesmo tempo em que isso se tornou um sonho, eu sabia da realidade, sabia de todo o preconceito e das dificuldades que iria enfrentar. Como eu estava no salão, resolvi ainda não me arriscar”.
 
Naquele período, Valesca chegou a tentar outras experiências profissionais, mas acabava esbarrando no preconceito. “Fiz uma entrevista de emprego em uma loja de cosméticos, gostaram muito de mim e disseram que a vaga era minha. Quando entreguei meu currículo, com o nome e o gênero masculinos, a conversa mudou na hora. Disseram que outra profissional estava mais gabaritada a preencher a vaga e que eu teria que aguardar outra oportunidade. Só que essa oportunidade nunca chegou. Tentei em outros locais, mas também não deu certo. Acabei, então, ficando no salão mais um tempo. Em 2014, resolvi disputar o Miss Pantera Trans novamente, fui mais preparada e venci. Isso me deu a coragem que eu precisava para ir em frente e disputar outros concursos”.
Meses depois, Valesca estava no Rio de Janeiro para participar do Miss T Brasil – o mais importante concurso de beleza do país para mulheres transgênero –, no qual foi considerada a transexual mais bela da terra verde e amarela. E foi aí que ela começou a experimentar, mais intensamente, a dor e a delícia da exposição.
 
REDE DE PRECONCEITOS
Logo que venceu o concurso, Valesca passou a ser alvo de comentários racistas nas redes sociais. Mas, talvez, o pior de tudo tenha sido o fato de que boa parte dessa depreciação veio de pessoas da própria comunidade LGBT, que tanto luta por respeito e oportunidades. “Não é fácil ser transexual e ser negra. Se você é transexual, você sofre preconceito de um lado, e, se você é negra, você sofre de outro. Então, são duas dores: homofobia e racismo. Mas é aí que o berço da família e que o amor entram para dar o suporte necessário para você atravessar esses momentos difíceis. Não vou mentir e dizer que isso não me afetou no início, mas tive duas escolhas: ou continuar acompanhando, me contaminar com aquilo e desistir de seguir em frente, ou transformar isso em algo produtivo, lutando ainda mais pelos meus objetivos, buscando ser melhor. Eu me conscientizei também de que nem todos vão me aceitar, me apoiar e me aplaudir. E sei que o preconceito, sobretudo num país de tanta diversidade como o Brasil, é algo muito mais feio para quem tem do que para quem sofre”, ressalta a modelo.
 
NOVA CONQUISTA
“A disputa do Miss T Brasil significou um ano entre Minas e Rio, passando, em alguns momentos, por outros Estados. Do período total do concurso, ficamos uma semana, em um hotel, sendo avaliadas em quesitos como comportamento, fotografia com roupas de banho, além de participar de palestras e de outras atividades. A mulher vencedora do Miss T Brasil ganha uma cirurgia de mudança de sexo e representa o país no Miss International Queen”, explica a betinense.
 
Depois de vencer o concurso, a betinense adotou um estilo de vida ainda mais diferenciado, com uma rotina de exercícios específicos para moldar melhor o corpo e uma alimentação mais saudável, além de trabalhos para melhorar a fotogenia e de algumas intervenções não invasivas para ressaltar traços femininos. Uma das mudanças mais importantes da vida dela ocorreu há pouco tempo. Antes de representar o país no Miss International Queen, Valesca passou pela cirurgia de mudança de sexo. O procedimento foi realizado na própria Tailândia, no fim de outubro. “Esse foi um dos principais motivos que me levaram a participar do Miss T Brasil, até porque o profissional que faz a intervenção é um dos mais conceituados do mundo. E ter embarcado para a Ásia me trouxe vários aprendizados. Primeiramente, pela questão do idioma. Nunca havia feito uma viagem internacional e também não sei falar bem inglês. Então, tive que me virar, pois não havia tradutor. Felizmente, deu tudo certo, aprendi a falar algumas coisas em inglês e até em tailandês. Depois disso, já no período do concurso, consegui me destacar e, com isso, até dissipar parte daquelas mensagens preconceituosas que insistiam que o Brasil passaria vergonha ao ser representado por uma ‘macaca’, que o país não está na África e assim por diante”, revela.
 
Única negra a participar do Miss International Queen, que reuniu 26 participantes com idades entre 18 e 36 anos, de 17 países, Valesca conseguiu ter, mais uma vez, aquele gostinho que apenas um grupo seleto de mulheres brasileiras já conseguiu – desfilar em trajes de gala, de banho e com roupas típicas do país de origem e, principalmente, a chegar tão perto do título que coroa a mais bela do mundo. Ela não revela a premiação, mas diz que foi “muito boa”. A vencedora do concurso foi a filipina Trixie Maristela, de 29 anos.
 
Apesar do momento histórico, esse não foi o concurso mais marcante para Valesca. “De todos eles, muito especiais, o que mais marcou foi o Miss Brasil T, que me tirou de uma realidade, que me abriu portas, que me mostrou o mundo. De todos, é o que levo com mais carinho e orgulho”.
 
Sobre os planos para 2016, a miss diz que quer se dedicar mais a projetos pessoais. “Quero fazer um curso de idiomas, não só para me preparar para futuros concursos, mas para a vida pessoal. Quero cursar uma faculdade também, pois sabemos que a beleza passa. Estou sentindo falta da família. Então, creio que 2016 será um ano mais voltado para realizações pessoais”, diz a modelo, que está namorando, mas prefere não comentar muito a vida afetiva.

 




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