O herói das montanhas

Gente: Lacarmélio Alfeo

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Criado em 14 de Setembro de 2015 Gente

Fotos: Luciano Reis

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Com a identidade secreta de Celton, personagem de aventuras por Belo Horizonte, o quadrinista Lacarmélio Alfeo ganha a vida produzindo e vendendo revistas em quadrinhos nos sinais de trânsito de capitais como BH, Rio e São Paulo
 
Luna Normand
 

Já imaginou se tornar herói de revis­ta em quadrinhos e criar as suas próprias histórias com roteiros inspirados no seu cotidiano? É o que faz, todos os dias, o quadrinista Lacarmélio Alfeo de Araú­jo, de 56 anos, também conhecido pelo nome do seu personagem mais famoso, Celton, um mecânico cheio de super­poderes. Além de criar as histórias, La­carmélio as edita e vende os exemplares nos semáforos do trânsito engarrafado de Belo Horizonte. Tudo isso de um jeito ir­reverente e único – ele se veste com um terno amarelo e extravagante e está sem­pre com um estandarte nas mãos, no qual anuncia sua publicação.

Celton – o personagem – nasceu em 1981, mas emplacou mesmo em 1998. Até então, os poucos exemplares das histórias em quadrinhos eram vendidos em bares e na porta de faculdades Belo Horizonte. La­carmélio resolveu então reformular a pu­blicação e apostar nas vendas na rua. “Não dava para viver do gibi. Por isso, trabalhava como designer gráfico. Pagava a gráfica com o meu salário, mas, um dia, vi que a situação estava ficando ruim e decidi parar de produzir. Foram quase seis anos sem publicação até que percebi que não aguen­tava mais ficar sem fazê-la. Eu era apaixo­nado por isso. Analisei como poderia sus­tentar a revista, e foi aí que experimentei o sinal de trânsito”, recorda-se.

Com temas bem brasileiros e histórias criativas, que misturam humor e sátira, o herói caiu no gosto dos belo-horizon­tinos, e Lacarmélio, finalmente, passou a viver do que mais gosta de fazer. O hobby que se transformou em trabalho surgiu ainda na infância, na cidade de Itabirinha de Mantena, a 426 km da capital, para onde o escritor se mudou em 1972, aos 13 anos. “Com 6 anos, eu já escrevia histórias e fazia roteiros. A primeira matéria que me despertou interesse na escola foi o português, mas só estudei até o segundo ano do segundo grau (atual ensino mé­dio). Vim para Belo Horizonte com minha família para minha mãe trabalhar. Imedia­tamente, fui para a rua vender mexerica, picolé, doces e loteria. Também fui en­graxate. Por isso mesmo, vender minhas revistinhas na rua não foi uma novidade. Eu já sabia muito bem como era isso”, diz.

É o escritor quem realiza todo o pro­cesso de produção do gibi, que envolve muita pesquisa, dedicação e força de vontade. Ele se inspira no dia a dia de grandes metrópoles, como Belo Horizon­te, São Paulo e Rio de Janeiro – cidades onde vende a publicação, que retrata sobretudo conversas informais com as pessoas, cenário político e repercussão de noticiários. As histórias relatadas não têm periodicidade, variando de acordo as circunstâncias. “Quando eu viajo para vender, fico um tempo sem criar novas revistas. Já estou em BH, elas saem mais rápido. Se erro a receita, que é fazer uma revistinha que não bomba, aí o bicho pega. Algumas também exigem pesquisas que não estavam no cronograma, e isso faz com que uma nova história demore a surgir”, conta.

Já são 35 gibis produzidos e publica­dos por conta própria. Os poucos anún­cios, segundo ele, não pagam os gastos. Por isso, é preciso batalhar e vender. En­tre os títulos já comercializados estão “A Lenda da Loira do Bonfim”, a “História da Origem de BH” e o mais famoso deles, “O Combate da Sogra contra o Capeta”, do qual Lacarmélio garante já ter vendido mais de 80 mil cópias. “Essa revista bom­bou em Belo Horizonte. Nessa aventura, a sogra morre e vai para o inferno, e o capeta passa um aperto com ela”, revela.

GANHA-PÃO

Cada exemplar era vendido a R$ 4, mas, atualmente, os gibis não têm preço definido. O quadrinista diz que cansou de ser xingado. “Tinha gente que falava que estava caro. Agora, as pessoas pa­gam o que querem”, informa sem revelar o preço médio que fatura por revista. É com o dinheiro das vendas diárias que ele sustenta a esposa e o filho, de 12 anos. O quadrinista também fatura com os convi­tes que recebe para palestrar em empre­sas. Nesses encontros, o escritor conta sua história de vida, fala sobre vendas e iniciativas em momentos de crise, ou, como ele mesmo diz, “sobre quando o bi­cho pega”. “Qualquer negócio passa por situações difíceis. Digo que, se as pessoas não tomam as providências corretas, o negócio afunda”, ensina.

Tanta dedicação já rendeu a ele partici­pações em programas como “Fantástico” e “Globo Repórter”, além de dezenas de matérias em jornais e revistas pelo país. Lacarmélio, no entanto, não se deslumbra com a fama. “Muita gente pensa que eu sou rico só porque apareço na televisão, mas não sou. Trabalho com isso porque gosto e também porque preciso pagar mi­nhas contas”, ressalta.

O segredo do sucesso, ele diz, está na mistura de paixão, dedicação e profissio­nalismo. “Eles foram e são fundamentais para meu sucesso. Se eu perder um deles, minha revista acaba, e isso só vai aconte­cer quando eu morrer”, garante. Lacar­mélio antecipou para nossa reportagem o título de seu próximo gibi, inspirado no cenário político atual. “Os Ratos de Brasí­lia” deve ser lançado em breve.

 




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