Sem papas na língua

Cientista política de Minas Gerais tornou-se um dos assuntos mais comentados do Brasil nas redes sociais ao se declarar contra o presidente Michel Temer após sua eliminação do programa global “BBB 2018”. Mara Telles, de 53 anos, não hesita em defender sua

Criado em 15 de Março de 2018 Conversa Refinada
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Natural de Governador Valadares, na região do Vale do Rio Doce, e, atualmente, moradora de Belo Horizonte, Helcimara Telles, mais chamada de Mara Telles, com 53 anos, já era conhecida localmente pelas postagens que faz nas redes sociais. Doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Departamento de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela costuma manifestar sua opinião sobre o cenário político nacional e internacional, rechaçar a violência contra a mulher e pesquisar a opinião pública.

Recentemente, as posições firmes da mineira se destacaram em nível nacional com a participação dela no reality show “Big Brother Brasil 18”, da Rede Globo. Mara foi a primeira eliminada do programa, com 55% dos votos, e provocou grande repercussão ao fazer uma declaração, em TV aberta, contrária ao presidente Michel Temer (PMDB). Em entrevista à revista Mais, ela comentou a breve passagem pelo “BBB”, o que mudou depois dele e como ela avalia o papel das redes sociais nas discussões contemporâneas – no Facebook, ela soma mais de 17 mil seguidores.

Quando e como se deu sua escolha pela ciência política?

Ela ocorreu após minha graduação em história, pois sempre tive interesse em aprofundar o conhecimento sobre as razões que levam os indivíduos a formarem grupos que atuam na esfera pública. O comportamento político, seja de grupos, seja de indivíduos, é uma das áreas mais antigas da ciência política, e, por essa razão, venho me dedicando, sobretudo, ao tema da opinião pública e da influência das mídias na formação dessa opinião.

E por que a decisão de militar pela esquerda?

Não sou militante de esquerda nem filiada a partidos políticos, muito embora considere que, com a fragilização global da democracia, a “militância” torna-se quase que um imperativo para resguardar direitos civis, políticos e sociais não só no Brasil, mas em outros países, nos quais diversos direitos e a soberania popular estão sendo ameaçados pela crescente interferência de fortes grupos de interesse advindos do mercado sobre os governos. A democracia tem sido substituída pela “mercadocracia”, ou seja, a soberania popular e o Estado têm perdido cada vez mais espaço para as políticas que privilegiam os interesses das grandes corporações. Minha chamada “militância” se resume a meus posts no Facebook, onde apresento minhas percepções sobre a conjuntura política nacional e internacional e debato também temas transversais à política institucional, como a intolerância, o racismo, a desigualdade social e a baixa representatividade das mulheres na política e em postos de direção no mercado de trabalho. Antes de ser uma militante – atributo que valorizo em qualquer indivíduo –, sou uma pesquisadora de opinião pública e tento entender como o público pensa e compreende a política.

Quais são os maiores desafios para se falar sobre política hoje com os jovens?

O maior desafio é reconstruir o espaço da confiança na política e no sistema político. Em função de uma crise, muitos jovens têm sido atraídos para soluções autoritárias. A desconfiança na política, se ultrapassar alguns limites razoáveis, pode se tornar perigosa, uma vez que a crítica aos políticos atuais tem contaminado a percepção dos jovens sobre a política e expandido o descrédito em relação à democracia. Esse descontentamento com a política vem levando muitos jovens a negarem-na como um espaço de renovação e de debate. Nesse sentido, soluções individuais, como a participação em grupos religiosos, estão crescendo mais do que a participação em grupos de ações coletivas, como movimentos estudantis, sindicatos e outros grupos representativos. Em pesquisa realizada em Belo Horizonte, detectamos que a maioria dos jovens não se interessa por política, embora parcelas significativas sejam favoráveis à obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas.

Em sua avaliação, as redes sociais e a facilidade com que as pessoas expõem opiniões nelas têm ajudado a população a se envolver mais com as questões políticas ou têm apenas sido um espaço para conflitos?

As redes sociais ampliaram os debates sobre a política, muito embora o alargamento desse debate e a inclusão digital tenham trazido à tona a intolerância social e política que se encontrava presente na sociedade. Muitas vezes, as redes sociais não apenas expressam grupos intolerantes e radicais que já existiam: há grupos constituídos profissionalmente nas redes que agem no sentido de produzir mais intolerância. A profissionalização de grupos de ódio nesses espaços teve seu apogeu em escala global com a eleição de Donald Trump, e a intolerância é também um fenômeno promovido no universo online.

De maneira geral, tanto na web quanto nas relações offline, a senhora percebe mais abertura das pessoas para discutir política atualmente?

O espaço para a discussão sobre a política aumentou. Contudo, a expansão desses espaços vem sendo acompanhada de uma crescente avaliação negativa da política, sem que formas de atuação alternativas sejam apresentadas ao público. É importante debater sobre a baixa qualidade da representação político-institucional no país, mas, por outro lado, é fundamental assegurar que a política permaneça como um espaço de debates. A morte dela só interessa a grupos autoritários.

Como foi o processo de participação no “Big Brother Brasil” (BBB) 2018, desde a inscrição até a eliminação?

Não posso responder sobre o processo seletivo.

O que mudou em sua vida após o programa?

Eu acredito que eu tenha sido selecionada pelo fato de ser quem eu sou: uma professora que participa do debate nacional sobre a política, que pesquisa opinião pública, que declara seu interesse em programas de entretenimento endereçados ao grande público e que expressa suas posições nas redes sociais. Assim, o que mudou foi a escala: um número de pessoas limitado conhecia minhas ideias em relação à  política e meu trabalho como pesquisadora. Atualmente, a quantidade daqueles que me conhecem por essas mesmas ideias aumentou enormemente.

Sua declaração “Fora, Temer” foi algo que você já havia planejado fazer quando foi selecionada para o “BBB”?

Não pensava sobre o que dizer ao ser eliminada, uma vez que nem sabia quando isso ocorreria. Foi totalmente espontâneo. Meu grito foi um desabafo que correspondeu ao de milhões de brasileiros, de diversas matizes políticas, que se encontram atualmente bastante insatisfeitos com o governo. Por essa razão, o “Fora, Temer” foi top trending no Twitter: por ter sido algo desejado pelo Brasil. Centenas de pessoas me cumprimentam pelo grito, e acredito que simbolizei o desejo de milhões delas: expressar em rede nacional um descontentamento geral que é atestado pelas pesquisas de opinião. 

Em alguns posts, você já havia feito críticas à Rede Globo. Por que participar de um programa da emissora?

Fiz críticas públicas à emissora pelo modo como ela enquadra os fatos políticos e pela maneira como agenda e narra a política nacional, narrativa da qual eu discordo. Contudo, no Brasil nada é simples. Outros grupos conservadores têm uma percepção negativa da emissora em função de sua abordagem mais liberal e progressista, em seus documentários e programas de entretenimento, no que diz respeito aos costumes e ao comportamento, com a qual concordo. Ela é a maior rede de comunicação do Brasil, e, para ultrapassarmos as “bolhas”, é necessário utilizarmos espaços que possam levar nossas ideias a um público que está além de nossas redes acadêmicas e políticas. O alcance dessa emissora foi importante para minha decisão de participar do programa, pois eu pretendia levar ao grande público a questão da violência cotidiana que é praticada contra a mulher brasileira e, especialmente, o feminicídio. Muitas mulheres, sobretudo das classes mais populares, veem TV aberta, mas não têm acesso a essa discussão. Através de uma grande emissora, poderiam ter contato com o tema da violência contra a mulher. Acredito que cumpri esse objetivo, pois centenas de mulheres me procuram para parabenizar por minhas falas no “confessionário” do programa, onde tive total liberdade para dizer que, caso ganhasse o prêmio, aplicaria parte dele em uma ONG de defesa pelo fim da violência contra as mulheres. Devemos ocupar todos os espaços oferecidos que possam dar visibilidade às nossas ideias.  Além disso, o prêmio oferecido pelo programa era bastante atrativo, e eu repetiria minha participação se tivesse oportunidade.




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