Evelhecer: início ou fim de uma etapa?

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Criado em 17 de Abril de 2013 Comportamento
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Por Lucas Fotunato Carneiro*

 
Carregamos a imagem do jovem forte, destemido, corajoso, belo fisicamente e inconsequente como a marca da revolução. Em contrapartida, em sua maioria, os ocidentais consideram o idoso um peso morto, alguém no fim da linha, uma pessoa em decadência corporal e mental. Essa concepção leva a práticas inaceitáveis de abandono e, até mesmo, de extermínio
 
Desde os tempos antigos, o idoso – ancião experiente, como queiram – carrega uma carga pesada, porque representa o fim de um caminho e o amadurecimento de uma vida. A discussão em torno dele não é recente. Ela remonta a antigas civilizações, algumas enxergando nele a experiência, outras, a expressão dos limites humanos.
 
O mundo ocidental moderno discorda da ideia de que o idoso carrega em si a experiência. As reais condições em que vive, atualmente, são fruto de muitas discussões sobre o seu papel social e, até mesmo, a sua capacidade de conviver e consumir. Ainda hoje, a biologia e a antropologia não conseguiram chegar a um acordo sobre a velhice, que, a meu ver, se apresenta como um fenômeno natural, porém, sem deixar de ser devastador.

Carregamos a imagem do jovem forte, destemido, corajoso, belo fisicamente e inconsequente como a marca da revolução. Em contrapartida, em sua maioria, os ocidentais consideram o idoso um peso morto, alguém no fim da linha, uma pessoa em decadência corporal e mental. Essa concepção leva a práticas inaceitáveis de abandono e, até mesmo, de extermínio – medida essa adotada pela ditadura portuguesa de Antônio Salazar, no século XX.

Para aqueles que idolatram a beleza e o vigor físico, discutir a velhice e o seu processo inerente ao ser humano causa um grande desconforto. A velhice e a reflexão saudável dos limites humanos e do fim natural, quando bem aceita, podem levar a uma qualidade de vida irrefutável.

Já nas culturas orientais, o envelhecimento é visto como algo positivo, sendo meio para alcançar uma vida de sabedoria e de prudência. A figura do homem ou da mulher austeros, silenciosos, calmos e de fala mansa que, na maioria das vezes, consegue prever situações e aconselhar, apresenta-se em relevo em relação ao jovem imprudente, cheio de energia e com os hormônios à flor da pele.

O jovem Platão admirava e se inspirava no velho filósofo Sócrates por sua sabedoria e por seu discernimento, no livro “A República”, de Platão. O mesmo relata uma discussão sobre a justiça na casa do velho Céfalo, homem respeitado em Atenas. Nesse caso, os jovens apenas acompanhavam as discussões. Na república ideal de Platão, crianças e adolescentes não recebiam o ensino da filosofia diretamente. Somente pessoas de idade mais avançada tinham acesso a tal conhecimento, pois esses precisavam exprimir suas opiniões e pensamentos nas discussões da Ágora (praça).

Portanto, se envelhecer é uma “droga”, como afirma o ator Arnold Schwarzenegger, ou se é a “melhor idade”, como dizem muitos aposentados, essas respostas são necessárias para contribuir para a valorização do idoso na sociedade, seja ele sábio ou um peso.

O idoso deve ser visto como um componente do tecido social. E não se esqueça: querendo ou não, todos nós um dia vamos viver a velhice. Quem sabe, sentados na varanda, vendo o pôr do sol, vamos, com um sentimento de nostalgia, nos lembrar sempre dos “velhos tempos”.

*Educador, graduado em filosofia pela PUC Minas, graduando em teologia e pós-graduando em psicopedagogia pela Fumec - fortunatocarneiro@gmail.com




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