O poço dos infelizes

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Criado em 03 de Setembro de 2012 O Papo é outro
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 Por Geraldo Eugênio de Assis

 
  Há muito tempo, percebo que o comportamento das pessoas vem mudando radicalmente. Inevitável que todos passem a agir assim. As liberdades individuais são a base para uma sociedade que pretende se adequar à modernidade. Um caminho sem volta para os países que conseguiram se libertar dos regimes totalitários.
 
 Embora diversos pontos causem polêmica, como, por exemplo, o relacionamento homoafetivo e a liberação da maconha, esses assuntos acabam por fazer parte de um modelo de sociedade já existente em outros países do mundo e que não será diferente para o Brasil. Gostem ou não alguns segmentos. 
 
 Outro dia, uma coisa me incomodou. Um comentário que me fez tomar a decisão de escrever sobre este assunto que vou desenvolver nas próximas linhas e que tem a ver com individualidade e liberdade.
 
 Ao sair para uma viagem de fim de semana rumo a São Tomé das Letras, fui questionado se tal comportamento não estaria fora dos padrões. “Você não acha perigoso para sua imagem sua presença em locais onde existem pessoas com   comportamentos diferentes dos demais da sociedade e de seu meio de relacionamento profissional?”.
 
 Comecei a rir. Afinal, estamos no século XXI. E nada me impede de fazer o que eu quero e que está dentro da lei. O fato de poder, em algum momento, ser referência para alguém não pode interferir nas minhas vontades e me fazer deixar de estar presente a algum local aonde eu queira ir. Se pensarmos assim, o simples fato de querer conhecer Amsterdã, por exemplo,  pode ser perigoso para alguns.
 
 Importar-se com a opinião dos outros pode ser muito útil para que você zele pela sua atuação no mercado de trabalho. É importante diferenciar sua vida pessoal da profissional. Em nossa vida pessoal, nossa atitude e nossos desejos não podem ser fruto de julgamentos alheios. Se o resultado de nosso comportamento for negativo, cada um que assuma a felicidade ou a tristeza de ser o que é.
 
 Por exemplo, um amigo, que já não é mais adolescente, teve vontade de pintar o cabelo. Perguntou-me o que eu achava. Respondi que, se ele estava feliz com isso, era o que importava. Se ficaria feio ou não, dentro dos padrões estéticos impostos, seria um problema dele.
Um livro não pode ser bom somente porque tem uma capa bonita, assim como as pessoas não deixam de ser honestas, trabalhadoras ou mesmo confiáveis porque têm em sua vida opções que não correspondem ao tradicionalismo e ao comum.
 Se a aparência e os comportamentos sociais fossem o espelho de caráter no Brasil, não teríamos problemas com políticos e outras pessoas públicas. Conheço pessoas que dedicaram sua vida ao trabalho e se limitam a oportunidades que nunca tiveram porque se acham velhas e fora da moda. Pensam no que os outros vão dizer.
 
 Sei que posso parecer contra algumas convicções e pensamentos enraizados nos resquícios da ditadura e do autoritarismo. Mas me perdoem os que me julgam por minha aparência e pelas atitudes voluntárias que me tornam feliz e realizado. Aliás,  realização não é cumprir os desejos que os demais fazem você acreditar serem motivos de orgulho. Sentir-se realizado é ter coragem de encarar a vida de maneira diferente. Fazer aquilo que se tem vontade e que os outros não se dão ao prazer por medo do que possam pensar.
 
 Quando escuto um rock and roll, sinto vontade de pular. Da mesma maneira que, ao escutar determinada música sertaneja, começo a chorar. Se estou em público ou não, isso não vai interferir em meu modo de curtir. Não vou a um show de rock para observar o comportamento das demais pessoas. Vou para extravasar.
 
 Transferir para fora o sentimento que posso ter naquele exato momento é algo que só a mim cabe julgar. Nunca faria comoafronta ou faltando com respeito. Mas, no local adequado e no momento certo, coloque para fora sua vontade de ser feliz, exteriorizando aquele sentimento que só você sabe o quanto é importante.
 
 Se cada um cuidasse de sua vida, o mundo seria diferente e, com certeza, bem melhor. O cidadão esquece sua participação política para se preocupar com a vida alheia. O jogo de intrigas e fofocas é motivado pelas novelas e os canais sensacionalistas. Temos vários exemplos, que preencheriam uma grande lista de coisas que estão além da preocupação que um cidadão deveria ter.
 
 Quantas vezes somos abordados com comentários maliciosos porque um cidadão resolveu entregar a sua vida a seguir determinada religião?
 
 “Converteu-se porque era um pecador”. Se alguém se declara ateu, pode ser levado às chamas, assim como fizeram com pessoas que pensavam de maneira diferente séculos atrás. Se o Estado deve ser laico, mais ainda o julgamento das pessoas. Esse exemplo é apenas uma gota em vários outros que me faz ficar perplexo com tanta mesquinharia.  É assim que enxergo gente que se preocupa demais com o que os outros fazem ou deixam de fazer de sua vida. Enquanto isso, a corrupção aumenta. O descaso com coisas importantes faz com que elas deixem de ser pensadas.
 
   Polêmico? Sim, talvez. Mas refletir, pensar e agir fazem parte daqueles que desejam viver de forma diferente. Viver para si mesmo, e não para os outros. Seja rápido. Porque tudo passa de maneira muito ágil. Nosso recorde de presença na terra é muito pequeno. E a única certeza na vida é que ela acaba. E leva todas as nossas vontades, nossos desejos e frustrações.

*Diretor da revista Mais. Bacharel em pedagogia. Formado em Políticas e Estratégias pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Pós-Graduado em gestão ambiental e gestão do cooperativismo. Graduando em direito. Membro da Jari PRF, Vice-Presidente do Setcob, Vice-Presidente do Conselho de Politicas Urbanas da ACMinas.        geraldoassis@revistamais.com




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