O uso da liberdade

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Criado em 24 de Julho de 2012 O Papo é outro
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  Por: Geraldo Eugênio de Assis*

Nada melhor do que poder apreciar as coisas boas da vida. Mas essa definição, para alguns, é mais do que subjetiva. Entrar no mérito do que são as coisas boas poderia se tornar particular demais. A intenção é escrever para criar a reflexão. Uma maneira de respeitar os leitores e a própria leitura. Afinal, a leitura é um ato que exige concentração, técnica e, principalmente, percepção. A cada frase corretamente interpretada, um ensinamento adquirido. Pelo menos é assim que deveria ser.

Vamos partir do principio do que é positivo dentro da sociedade. Não podemos deixar de perceber que qualquer ato que venha colocar em risco a nossa vida ou a de outras pessoas é uma ação negativa. Dentro dessa linha de pensamento, combater os excessos é fundamental. 

 

Mas também não posso afirmar que tudo o que é feito em doses mínimas deixa de ser ruim. A pessoa que dirige em alta velocidade e bêbado, por exemplo, uma vez por ano, pode levar às mesmas consequências do que a que faz isso constantemente. A probabilidade é menor, claro. Mas o resultado é indiferente no que diz respeito às consequências.

 

Assim também é para o uso de crack e para o sexo sem preservativo. Basta uma única ação para poder colher um resultado desastroso. Ao manter essa linha de pensamento, quero afirmar e tornar visível para as pessoas que algumas atitudes, mesmo que eventuais, não devem ser tomadas. Seja para ter uma experiência ou para ter histórias para contar, elas podem resultar em prejuízos eternos. 

 

Uma máxima de conhecimento público afirma: “tudo o que é demais sobra”. Mas ela não vale para o que citei anteriormente.Nem o pouco é possível. E, seja pouco ou seja muito, essas ações e condutas auxiliaram na construção das muitas restrições com que somos obrigados a conviver. 

 

Se algumas pessoas não exagerassem na bebida e, sob o efeito do álcool, não dirigissem e provocassem acidentes, a Lei Seca não teria sido criada. Se o respeito à diversidade existisse há mais tempo, vários privilégios deixariam de existir para aqueles que estiveram à margem da sociedade.

 

Hoje, pagamos o preço dos atos dos que não souberam usar sua liberdade de maneira correta. Mas também colhemos os resultados dos feitos dos que morreram por ela. Ser livre não é fazer tudo o que se pode e o que se quer. Ser livre é ter conhecimento das limitações que são necessárias para a boa convivência social. É algo parecido com a definição de felicidade. Pessoas que têm tudo o que o materialismo oferece podem ser tristes.

 

Parece que estou escrevendo uma filosofia de boteco. Mas o aprofundamento nessas questões nos levará a conclusões

óbvias, mas importantes, acredito. Entrar no assunto das drogas é necessário neste momento de reflexão. Sem um discurso moralista e muito menos hipócrita. Começo por afirmar que todos nós usamos drogas. A diferença é que algumas são lícitas, e outras, não. Mas um dos resultados dessa ignorante e radical restrição faz florescerem hoje as passeatas e as manifestações pelo uso da maconha.

 

Tempos atrás, a população em geral acreditava que o uso de drogas tinha ligação com aqueles que curtiam o rock´n roll. Tudo o que não é permitido pelos padrões existentes e impostos vira julgamento antecipado. Usar tatuagem ainda é, para alguns, uma marca registrada de ligação com as drogas ou com um mundo não permitido pelo tradicionalismo. Muita coisa mudou. Mas a visão negativa dos excessos não. 

 

Tive uma infância, no mínimo, perigosa: bairro de periferia, poucas oportunidades e muita coisa ruim sendo oferecida todos os dias. Parte daqueles com quem convivi nessa época está em clínicas de recuperação ou junto com o amontoado de gente espalhada em alguma sala escura nos centros de reabilitação. 

 

As escolhas fazem parte de nossa vida e representam a projeção de nosso futuro. Aqueles que acreditam que a vida é curta e querem aproveitar tudo podem é encurtá-la ainda mais pensando dessa maneira. Os caminhos escolhidos por qualquer pessoa podem, com certeza, influenciar por toda a sua vida. Para algumas dessas escolhas não existe uma nova chance. Pensemos nisso.

Eu não preciso afirmar aqui que usei drogas. Alguns podem achar que estaria fazendo uma apologia ao consumo. Mas não posso deixar de destacar que, ao sair na rua com um moicano empinado ou com tatuagens pelo corpo, todos pensam que, antes de ser um sinal de protesto ou de preferência estética, está ali um jovem drogado. É nessa hora que entra o risco de um caminho sem volta. Custei muito a modificar essa imagem.

Tive a felicidade de me encaminhar pelo lado “correto” a tempo. Não que esse seja o lado idealizado por mim. Mas é o que faz possível a realização de sonhos. Por isso, devemos ser cautelosos em nossas ações, no que vamos seguir como referência de vida. Se não for possível deixar de ser exagerado em suas escolhas, não as faça. Se o excesso é um mal visivelmente percebido por nós, atitudes simples, mal-escolhidas, podem refletir por toda a nossa vida. Fecho com uma frase conhecida popularmente: “Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”. Completo com a certeza de que tudo o que colhemos é resultado de nossas escolhas e de nossas ações. Façamos disso um destino escolhido. Tenhamos a certeza de que o resultado não será outro senão uma vida digna, em que nossos sonhos serão realizados. 

 

 

*Diretor da revista Mais. Bacharel em pedagogia. Formado em Políticas e Estratégias pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Pós-Graduado em gestão ambiental e gestão do cooperativismo. Graduando em direito. Membro da Jari PRF, presidente do Setcob, presidente da Ascarg, membro do grupo Anjos do Asfalto, vice-presidente do Conselho de Políticas Urbanas da ACMinas. geraldoassis@revistamais.com

 

 

 




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