Pássaros ao ar

Criado em 26 de Junho de 2016 Cultura
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Domingos de Souza Nogueira Neto

Nestes tempos em que temos poucas boas notícias sobre o meio ambiente, acompanhei, recentemente, uma reportagem sobre uma ave considerada extinta na Nova Zelândia, o “New Zealand Storm Petrels”; em uma tradução direta, o “Petrel da Tempestade Neozelandês”. Fiquei feliz porque vejo todos os dias o que nossa ganância e nosso egoísmo podem fazer com essas aves, mas passou.

Já estava pensando em outras coisas quando, novamente, fui surpreendido pela notícia do reaparecimento da rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), que tinha sido observada pela última vez em 1941, há 75 anos, e já era considerada extinta por muitos especialistas. Porém, no sábado 21 de maio, pesquisadores do Observatório de Aves – Instituto Butantan e da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (Save Brasil) anunciaram a redescoberta da espécie, que é criticamente ameaçada de extinção.

Sou de uma época em que as aves eram caçadas com bodoques e espingardas de chumbinho pela criançada, por esporte, já que esses animais nem sequer serviam para comer. Montávamos arapucas, alçapões, laços, visgos, tudo para trazer os pássaros do céu e das árvores até nossas gaiolas. E hoje, ainda hoje, são muitos aqueles que criam passarinhos na gaiola, achando que ali cantam felizes para alegrarem seus donos.

Já vi alguns debates, bem poucos, em que os donos e criadores de pássaros afirmam que os “pássaros de gaiola” morreriam certamente na natureza, que não poderiam ser readaptados sem rações que os alimentassem e grades que os cercassem. Essas pessoas promovem concursos de canto de pássaros e se prostram diante de uma cacofonia que não é destinada aos ouvidos humanos, mas, sim, feita de um pássaro para outro.

Dos ambientalistas, ecologistas e conservacionistas, por outra via, tenho escutado um discurso, que soa um pouco “eugênico” para mim, no sentido de que soltar em um ecossistema raças estranhas a ele produziria um tipo de concorrência predatória, que poderia levar à extinção de espécies naturais daquele habitat.

Não sou um especialista em meio ambiente, não sei como devolver à natureza espécies que escravizamos com tanto esforço sem com isso causar mais danos. Mas imagino que haja uma forma. Quero acreditar que poderemos ouvir nossos pássaros cantando no céu, nas árvores, na beira dos rios e, quem sabe, nos beirais de nossas janelas, para eles mesmos, e não para nós, e, com isso, sentirmo-nos felizes.

Quero pensar também que poderemos construir um dia um meio ambiente melhor, não para a sobrevivência de nossa espécie, mas para que ela sirva a uma comunidade de espécies que habitam a terra e que merecem usufruir igualmente dela. Todavia, enquanto não somos melhores e rezamos todos os dias pelo perdão de nossos pecados, quero dar as boas-novas: “duas novas espécies de pássaro voltaram a voar nos céus. Que sejam muito bem-vindas!”.

 

 




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