Toda forma de amor vale a pena

POR Domingos de Souza Nogueira Neto*

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Criado em 13 de Agosto de 2014 Cultura
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“Não foi encontrada nenhuma espécie em que o comportamento homossexual não se demonstrou existente, com exceção de espécies que nunca fazem sexo, tais como ouriços e aphis. Além disso, uma parte do reino animal é hermafrodita, realmente bissexual. Para eles, a homossexualidade não é um problema” 

O preconceito pode ser, realmente, um grande obstáculo para a apropriação do conhecimento. As pessoas acham isso e aquilo, e ponto! Dali não arredam pé. A relação homoafetiva e o “casamento gay” trazem à tona o mundo extremamente preconceituoso em que vivemos, a into­lerância, o desrespeito à diversidade e a ignorância sobre questões que deviam ser aprendidas nos níveis iniciais da escola.

O objetivo desta coluna que, certa­mente, não tem o poder de remover as toneladas de entulho que mascaram o tema, é esclarecer alguns poucos tópi­cos, em uma época em que até o papa da Igreja Católica e os ministros do Supremo Tribunal Federal, conhecidos pelo conser­vadorismo, tentam arrastar a sociedade para frente, forçando-a a aceitar o que é (como sempre devia ter sido): a opção homossexual existe hoje, como sempre existiu, e que é – choquem-se meus ami­gos – tão natural e antiga como a opção heterossexual.

Vamos começar pelo que é menos conhecido: a homossexualidade não é antinatural e não acontece apenas entre seres humanos. Na verdade, ela existe corriqueiramente na natureza, o que é fato conhecido por qualquer professor de biologia. Para não dizer que acontece com todos os seres vivos.

A presença de comportamento ho­mossexual não foi “oficialmente” ob­servada em larga escala em animais, até tempos recentes, possivelmente, devido ao viés do observador causado por ati­tudes sociais em relação a esse tipo de comportamento sexual, confusão ino­cente ou, mesmo, de um medo de “ser ridicularizado por seus colegas”. O bi­ólogo Janet Mann, da Universidade de Georgetown, diz: “Os cientistas que es­tudam o tema são frequentemente acu­sados de tentar encaminhar uma agenda e seu trabalho pode ficar sob maior es­crutínio do que o de seus colegas que estudam outros temas”. Eles também notaram que “nem todo ato sexual tem uma função reprodutiva... isso é verdade para os seres humanos e não humanos”. Isso parece ser difundido entre as aves e os mamíferos sociais, particularmente, os mamíferos marinhos e os primatas.

A verdadeira extensão da homossexu­alidade em animais não é totalmente co­nhecida. Enquanto estudos têm demons­trado o comportamento homossexual em várias espécies, Petter Bøckman, o asses­sor científico da exposição “Against Natu­re?”, de 2007, especulou que a verdadeira extensão do fenômeno pode ser muito maior do que é até então reconhecida: “Não foi encontrada nenhuma espécie em que o comportamento homossexual não se demonstrou existente, com exceção de espécies que nunca fazem sexo, tais como ouriços e aphis. Além disso, uma parte do reino animal é hermafrodita, realmente bissexual. Para eles, a homossexualidade não é um problema”.

A observação do comportamento homossexual em animais pode ser vista como um argumento a favor e contra a aceitação da homossexualidade em hu­manos e tem sido usada especialmente contra a alegação de que é um peccatum contra naturam (“pecado contra a natu­reza”), ou seja, uma farsa. Por exemplo, a homossexualidade em animais foi ci­tada na decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos no julgamento Lawrence versus Texas, que derrubou as leis contra as relações homoafetivas de 14 Estados daquele país.

Grandes guerreiros da antiguidade admitiam a opção homoafetiva, e é difí­cil acreditar que críticos do presente fos­sem tão ousados naquela época. Alguns estudos sugerem que o comportamento homossexual fosse comum entre aqueles que participavam da rotina de batalhas. Segundo tais pesquisas, os comandantes militares acreditavam que o estreitamen­to dos laços entre dois guerreiros poderia fazer com que estes ficassem mais dispos­tos a lutar pela cidade-Estado. Além disso, o próprio envolvimento servia de estraté­gia ao impelir o soldado a continuar em batalha pelo seu companheiro. Podemos citar exemplos conhecidos: Alexandre, da Macedônia; Myamoto Musashi, o samurai que nunca perdeu uma batalha; Pausa­nias, general de Esparta; Júlio César, de Roma; entre tantos outros.

Na China, era normal casais femininos em que elas se relacionavam como mari­do e mulher, sendo que a prática tinha até um nome distinto: dui shi. Há também re­gistros de tribos primitivas onde a relação entre mulheres era comum, quando não exclusiva.

Mas quem marcou essa história foi a poetisa grega Safos, que, a cerca de 600 a.C., registrou abertamente seus desejos sexuais também por pessoas do mesmo sexo. Sua poesia erótica e política rendeu­-lhe polêmicas antes e depois da morte, tendo seus textos queimados no Império Romano. Ela também é a responsável pelo termo “lésbica” – a poetisa nasceu na ilha de Lesbos.

A mitologia grega está recheada de deuses, semideuses e seres bissexuais ou homossexuais. O casal mais famoso de todos é formado por Zeus e Ganimedes. Hércules, famoso por suas habilidades e força, também amava a Filoctes, Nestor, Adônis, Jasão e outros, mas o seu amor era notório pelo sobrinho Lolau. Apolo, deus da beleza e da eterna juventude, além de seus incontáveis amores femini­nos, possuiu inumeráveis homens.

O sexo homossexual sempre fora pra­ticado entre os índios. Em algumas tribos, essa era a forma de curandeiros passarem seus conhecimentos. Rituais de iniciação fazem parte da tradição do índio entrando na puberdade. Em muitas comunidades, inclui-se a iniciação sexual. O baito, tenda dos homens, foi presenciado no século XIX pelo naturista alemão Karl Von den Steiner. A falta de mulheres disponíveis na tribo também era resolvida de forma prática.

Podemos citar alguns dos gays mais in­fluentes do passado: Leonardo da Vinci, Sócrates (filósofo), Alexandre, o Grande (rei da Macedônia); Stephen Fry (ator e roteirista), Oscar Wilde (escritor e poeta), Harvey Milk (ativista da causa gay), Peter Tchaikovsky (compositor), Júlio César (lí­der da Roma Antiga), William Shakespe­are (escritor). Entre os modernos: Andy Warhol (artista); o executivo Tim Cook, da gigante Apple; Ellen Degeneres (apre­sentadora); Judy Foster; Renato Russo; Ney Matogrosso; Daniela Mercury; Cássia Eller; Cazuza (bissexual assumido) e tan­tos mais.

Para concluir, na esperança de ter rompido com algum preconceito, lem­brar nosso poeta das montanhas, Milton Nascimento, que cantava: “toda maneira de amor vale a pena, toda maneira de amor vale amar”... e dizer que ninguém é obrigado a ter relações homoafetivas, mas que ninguém pode proibi-las, muito menos agredir quem faz esta opção. Lem­bro também que piadas sobre a opção sexual alheia são tão grosseiras e discri­minatórias como as piadas racistas, por exemplo. Mas se você acha tudo isso um absurdo, e não admite nenhum tipo de relacionamento cordial com alguém que tenha feito uma opção homossexual, tudo o que posso dizer é que o assunto está o incomodando demais, e que isso só pode ter a ver com a sua própria sexualidade. Vale a pena pensar nisso.

* Crítico de arte, estudioso de direito e de psicanálise e professor de judô – domingos_nogueira_ consultoria@yahoo.com.br. 




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