Uma tradição musical

Música

Criado em 17 de Dezembro de 2015 Música

Fotos: Acervo Pessoal | Samuel Gê

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Com mais de 100 anos de existência, banda Nossa Senhora do Carmo encanta betinenses com apresentações para todos os gostos

Sara Lira

CENTENÁRIA, TRADICIONAL E ECLÉTICA. Essas são algumas das características que se podem atribuir ao grupo musical mais antigo de Betim: a banda Nossa Senhora do Carmo. Seja nas praças, seja nas igrejas, ou ainda nos desfiles em comemoração à Independência do Brasil – quando ainda eram realizados –, praticamente todo morador de Betim já viu alguma apresentação da banda.
 
A história da Nossa Senhora do Carmo se confunde com a da cidade, afinal o grupo foi criado antes da emancipação do município, na época em que era distrito de Capela Nova. Fundada pelo Padre Osório Braga, no ano de 1898, a banda tinha como principais funções “puxar” procissões e participar de festas religiosas, já que, naquele tempo, não havia carros de som.
 
A formação inicial era a de aproximadamente 25 músicos, com um coral feminino, que acabou anos depois. Ao longo do tempo, o grupo foi se modernizando, e o leque de apresentações, aumentando. “Passou-se não só a tocar em festividades religiosas, mas, também, em eventos oficiais e particulares e em desfiles cívicos”, conta o maestro Adriano Rodrigues, que participa do grupo há 23 anos, tendo começado como saxofonista.
 
No fim da década de 80, as primeiras formações foram perdendo força. Para se renovar, a banda recebeu alunos de música novos, sendo que alguns desses ainda permanecem. Entre altos e baixos, o conjunto seguiu sendo referência no Estado. E um dos momentos mais importantes vividos pelos músicos foi o da vitória da banda num concurso estadual depois de ela ter disputado com centenas de representantes de outras cidades mineiras. O integrante mais antigo, Sebastião Cirilo, de 62 anos, lembra-se, com muita alegria, desse episódio. “Achávamos que não iríamos conseguir superar as outras bandas, mas, felizmente, vencemos. Foi muita emoção”, salienta o tocador de trombone de vara. Cirilo ingressou na Nossa Senhora do Carmo na década de 60, ainda adolescente, por influência do pai, que também fez parte da banda. Na época, havia aulas de música no Colégio Comercial – onde, atualmente, está localizado o Museu Paulo Araújo Moreira Gontijo –, e os alunos ficavam após a aula para assistir aos ensaios do grupo. “Aqueles que iam adquirindo um nível bom no instrumento podiam entrar. Fiquei muito feliz quando meu professor me deu a notícia de que eu seria integrante”, orgulha-se Sebastião.
 
Alguns anos depois, o músico teve de sair para servir ao Exército, mas, na década de 80, retornou e de lá não saiu até hoje. “Eu sentia saudades. Nas cidades em que eu morei, sempre parava para assistir a apresentações de bandas. Quando voltei para Betim, o então maestro me perguntou se eu gostaria de voltar e aceitei”, relata. Participar do grupo é um legado na família Cirilo. Além do pai, dois irmãos de Sebastião chegaram a integrar o corpo de músicos. Aliás, tradição familiar é algo forte na banda Nossa Senhora do Carmo. De acordo com o maestro Adriano, no passado membros das famílias mais tradicionais da cidade fizeram parte da corporação. Muitos marcaram época, mas a maioria já faleceu.
 
 
ALVORADAS
Hoje, a banda conta com 23 membros. Um dos marcos do grupo são as alvoradas, apresentações especiais realizadas no dia 16 de julho, dia da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Carmo, que nomeia a banda. Segundo Adriano, os músicos se apresentam em cima de um caminhão, que vai passando em frente às casas dos festeiros responsáveis por ajudar na organização das comemorações pelo dia da santa. De acordo com os músicos, essa é uma forma de homenageá-los. Por volta das 5h, o cortejo começa, e, a cada casa onde o grupo para, é uma festa. Algumas pessoas saem para a rua ou vão para as sacadas dos prédios para “verem a banda passar”. “Muitas se emocionam. O ex-prefeito Tarcísio Braga sempre acordava chorando”, relata Adriano. A tradição se mantém há mais de cem anos, desde o início do conjunto.
 
DO TRADICIONAL AO POP
Além de um repertório recheado de dobrados, subgênero musical das marchas militares adotado pelas bandas, a trilha da Nossa Senhora do Carmo é também composta por músicas pop, românticas, bossa-nova, MPB, dentre outros estilos. Canções como “Thriller”, de Michael Jackson, e uma seleção das mais famosas do Abba, quarteto que fez sucesso entre as décadas de 70 e 80, são alguns dos exemplos de músicas já interpretadas pela banda.
 
E tudo isso está registrado em dois CDs. Um deles, com 12 faixas, foi gravado em 1995, pouco tempo após a vitória no concurso estadual de bandas. “Foi nosso ápice, e queríamos deixar isso guardado para as próximas gerações”, destaca o maestro. O segundo CD foi gravado há três anos e marcou a fase atual do grupo.
 
APRENDIZADO
Com a ideia de passar a tradição para as gerações futuras, a banda oferece cursos de musicalização para cerca de 50 crianças e adolescentes. As aulas são gratuitas e ocorrem duas vezes por semana. Alguns deles seguem o caminho da música e acabam ingressando na Nossa Senhora do Carmo. É o caso do percussionista do grupo, Saulo Coimbra, de 30 anos, que começou a fazer aulas aos 12. Ele aprendeu instrumentos de sopro, mas o gosto pela percussão falou mais alto. Aos 14, já se tornou membro oficial da banda. “Para mim, era algo grandioso. Orgulhava-me de tocar no grupo. Na escola, era destacado por ser um integrante jovem da Nossa Senhora do Carmo. Ao vestir o uniforme, eu não era mais o Saulo adolescente, e, sim, o músico da banda Nossa Senhora do Carmo”, relembra ele, que, atualmente, estuda licenciatura em música pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), além de ser o tesoureiro do grupo.
 
UM SONHO
Ao longo do último século, a banda ensaiou em diversos locais: no antigo Cine Marcelino, que ficava próximo à praça Tiradentes, no Centro; na Casa da Cultura Josephina Bento; em uma tenda montada perto da praça Milton Campos. Atualmente, os ensaios ocorrem em uma sala da Biblioteca Pública Municipal Leonor de Aguiar Batista, no bairro Angola, duas vezes por semana. Mas os integrantes da banda anseiam por uma sede própria, com sala acusticamente preparada para os ensaios. “É algo que esperamos há anos: um local adequado para armazenarmos documentos e instrumentos”, confessa Adriano Rodrigues.
 
A banda entrou para o estatuto da Fundação Artístico-Cultural de Betim (Funarbe) no fim da década de 80, e o órgão, até hoje, oferece uma verba mensal para a manutenção das atividades do grupo, como o pagamento dos músicos. Todavia, o orçamento é apertado. “Às vezes, temos que recusar convites para outras cidades porque não temos como pagar o aluguel do transporte. O ideal seria que uma empresa nos patrocinasse para que pudéssemos ter um ônibus e dar melhores condições ao músicos”, completa. Segundo ele, a banda costuma fazer viagens por todo o Estado de Minas Gerais.
 
Mas as dificuldades não abalam os integrantes, que acreditam ter uma missão, como destaca Saulo Coimbra. “Fomos preparados para sermos músicos fiéis, amantes de boa música, e somente nos desligaremos quando falecermos ou não dermos conta de fazer música. É uma história, uma tradição”, crava. Sebastião Cirilo também fala com prazer do ofício que exerce. Perguntado se pretende permanecer no grupo, ele diz: “Enquanto Deus me der força e saúde, quero continuar”, conclui.
 
SERVIÇO:
A banda segue a agenda da prefeitura, mas também toca em eventos particulares. Os convites podem ser feitos pelos seguintes meios:
E-mail: bandamusicalnsc@gmail.com
Telefones: (31) 9 8756-8898 ou 9 9658-1646.
Facebook: bandamusicalnossasenhoradocarmo

 




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